Maldita mente descontínua

Eu fiz um post aqui no blog  sobre a Alegoria da Caverna de Platão aplicada a bonsai que o Walter Pall falou em vídeo. E pensando sobre a questão de como os bonsai evoluíram de imitações das grandes árvores para os diversos estilos de bonsai, eu me deparo com o problema que nós, pessoas comuns, temos em analisar a evolução das coisas.

Isso se deve a nossa mente descontínua, resumindo é  a nossa dificuldade de imaginar ou enxergar processos que levam muito tempo, ou muito pouco tempo, ou coisas muito grandes ou ainda coisas muito pequenas. Por exemplo,  a sequencia de desenvolvimento de uma planta, o envelhecimento de uma pessoa, os vários tons de cinza entre o branco e preto… para você entender melhor o que é isso, recomendo este vídeo.

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Entendido o conceito, como isso afeta o trabalho em bonsai?

Bonsai não é como uma estátua que você esculpiu em rocha e que, se bem cuidada e protegida, nunca mudará seu aspecto e aparência. Bonsai é uma arte viva que está constantemente em mutação, sempre se renovando, com o tempo os galhos e troncos engrossam, ramos esticam, folhas caem ou mudam de cor, vaso fica saturado de raízes, ramos secam… como ficará esse bonsai daqui 30 anos?

Quando admiramos um belo bonsai de alto nível, ficamos a imaginar como ele chegou a este resultado? Que caminhos o mestre levou para desenvolve-lo? Quanto tempo até conseguir essa conicidade? Quanto tempo até ficar tão ramificado? Quanto tempo até uma ferida cicatrizar por completo? Qual a técnica ele aplicou para cicatrizar assim tão naturalmente? Que procedimento ele fez que deixou essa marca? E por que ele fez esse procedimento?

Quando começamos um projeto, temos em mente o resultado final ou simplesmente aplicamos certas técnicas que aprendemos? Simplesmente abaixamos os galhos porque bonsai são assim, ou pensamos exatamente a posição que ele deve ter para o formato correto que desejo?  Como ele ficará quando pronto? O que preciso fazer para coloca-lo em um vaso definitivo e chama-lo de bonsai? Seguimos um projeto realmente ou vamos simplesmente lidando com a brotação?

Se temos um material que precisará amadurecer, mas isso levará muito tempo, simplesmente descartamos a planta ou seguimos todo trajeto até seu aperfeiçoamento?

Essas são perguntas que faço a mim mesmo sempre.

Para exemplificar o que estou falando, veja esse Ligustrum do Harry Harrington, você consegue imaginar os intermediários entre o inicio em 2004 (saquinho rosa):

E o resultado final nesta foto de 2011?

Mas se você avaliar toda a sequencia de evolução da planta, fica muito mais fácil entender o que aconteceu e as decisões que o artista tomou:

Creio que para evoluir na arte precisamos treinar nossas mentes para compreender os processos que levam a certos resultados, isso só se obtém com estudo, observação de bons trabalhos e com a observação da natureza.

Fazer um bonsai é praticar a paciência para desenvolver as plantas, tudo leva-se tempo para acontecer, mas não precisa ser uma aposta incerta ou contar com a sorte, basta estudar e praticar.

O que você acha? deixe sua opinião nos comentários.

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comentários

One thought on “Maldita mente descontínua”

  1. Muito bom! O exemplo do bonsai é bastante ilustrativo das possíveis situações da mente: continua e descontínua.

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