Entrevista – Sergio Onodera

Hoje vamos estrear uma nova seção aqui no blog, quero fazer uma série de entrevistas com personalidades do bonsai nacional. Para começar decidi entrevistar não somente um bonsaísta mas também um ceramista muito talentoso.

Sergio Onodera nasceu na cidade de São Paulo, filho de pai japonês (imigrante) e mãe neta de italianos, 46 anos, estudou e desenvolveu a arte da cerâmica sob a supervisão de “Paulo Meireles”, proprietário do atelier Alquimia da Terra e renomado ceramista brasileiro, tendo também como inspiração e pesquisa a obra de Shugo Izumi um dos maiores mestres da cerâmica oriental no Brasil dentre tantos outros.

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André: Você é filho de imigrante japonês, e sua mãe é descendente de italianos mas já nascida no Brasil. A paixão por bonsai você aprendeu com seu pai ou foi algo que veio de outra fonte? Enfim, como foi seu primeiro contato com a arte e como ela te fisgou?

Sergio: Apesar da minha descendência japonesa meu primeiro contato com Bonsai foi um presente que recebi há uns 15 anos atrás: Uma cotoneaster com aproximadamente 5 anos de idade, cheia de pequeninos frutos.

Na época não sabia nada sobre Bonsai, deixei a àrvore dentro de casa, longe da luz do sol. A pobrezinha morreu depois de uns 2 meses. Fiquei muito chateado e tomei a decisão de estudar sobre o assunto: Comecei a buscar informações sobre o cultivo do Bonsai. Estávamos na década de 90 e a Web nem de longe era esse mundo de informação e compartilhamento que é hoje.

Minha solução foi procurar por cursos, revistas e livros na maioria importados que poderiam esclarecer várias dúvidas que tinha sobre a arte do Bonsai. Com o passar dos anos consegui montar uma grande biblioteca sobre Bonsai. Minha curiosidade se tornou uma paixão, li tantos livros que até perdi a conta. Passava horas foleando livros com trabalhos do Peter Chan, Ammy Liang, Paulo Antakly, Peter Adams, John Naka e tantos outros.

Quando comecei a me interessar pelo Bonsai, também descobri que meu pai que veio para o Brasil quando tinha perto de 30 anos, possuía em sua casa no Japão um Bonsai de Pinheiro Negro que segundo ele já passara por várias gerações na família. com idade aproximada de 200 anos.

André: Essas plantas passadas de geração para geração são comuns no Japão, aqui, como a arte ainda é recente, isso é muito incomum. Que fim levou essa planta?

Sergio: Meu pai esteve no Japão no começo dos anos 2000 e o kuromatsu estava na casa do irmão dele… E estava bem!

André: Você ainda pratica bonsai ou se concentra exclusivamente na produção de vasos?

Sergio: Sim, tenho em torno de 50 plantas. Não tenho me dedicado tanto quanto gostaria mas procuro cuidar de todas. A produção de vasos é maior devido à demanda que tenho para eventos e encomendas.

manufatura

André: Você começou fazendo bonsai e a partir daí se interessou por produzir vasos. Como foi que surgiu a necessidade ou a vontade de partir para esse ramo artístico?

Sergio: Na época quase não se encontravam vasos no mercado nacional. Acho que o Izumi era um dos poucos que se dedicava a produzir alguns modelos. Nessa época também conheci o trabalho do Sami Kozan do Rio Janeiro e do Jorge Ribas de Santa Catarina, ambos excelentes ceramistas com trabalhos bem diferenciados.

Com os estudos sobre bonsai e consequentemente sobre o “vaso” comecei a pesquisar regiões do Japão onde se produziam ceramica para Bonsai, lembro que fiquei impressionado quando descobri Tokoname. Imagine um lugar onde a produção de ceramica passa de pai para filho durante várias gerações. A materia prima, as técnicas, o design, tudo é de uma qualidade tão ímpar que me estimulou a começar algo similar aqui no Brasil!

André: A quanto tempo você produz e comercializa seus vasos?

Sergio: Cerca de 12 anos.

André: Hoje você vive somente da cerâmica ou ela funciona como um complemento na sua renda?

Sergio: Minha formação é em artes plásticas, desde muito jovem trabalho como ilustrador publicitário e editorial. E hoje divido meu tempo entre a ilustração e a ceramica. São duas atividades que me completam.

vasos

André: Seus vasos, pelo que percebo, são muito mais peças artísticas do que simples compartimentos cerâmicos para plantas. Você não trabalha com produção em série e nem com modelos pré-desenhados, esse não é um modelo de negócio de grande escala comercial. Quem procura um vaso seu procura algo único, artesanal e refinado, existe demanda suficiente nesse nicho de mercado?

Sergio: Sim. É exatamente isso. Não tenho uma produção em grande escala comercial. Para ter o produto final que espero tenho que me dedicar totalmente. Cada vaso que faço pra mim é único mesmo. Concordo que a demanda não é muito grande mas tb minha produção é limitada.

André: A maioria dos bonsaistas não conhecem profundamente o processo de produção da cerâmica dos vasos, você acha importante esse tipo de conhecimento para a prática do bonsai?

Sergio: Sim, acho muito importante. Por exemplo, em países onde a temperatura cai para abaixo de 0 graus, os bonsaistas quando procuram um vaso têm consciência de que a ceramica deve ser de alta temperatura (1.260 graus) pois os vasos de baixa retêm muita umidade e acabam por trincar quando a água retida por entre as parades do vaso congelam.

André: Como você faz a seleção da matéria prima e como isso impacto a qualidade final das peças?

Sergio: No meu caso prefiro selecionar e comprar a material prima (argila) de fornecedores que têm uma produção uniforme. Geralmente compro lotes de 200 kg para manter uma unidade durante uma certa produção.

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André: Você utiliza fornos elétrico e a gás, como o tipo do forno afeta a cerâmica do vaso? O forno limita o tamanho dos vasos que você produz?

Sergio: Cada forno têm a sua peculiaridade, com resultados bem específicos. Minha experiência são com fornos elétricos e a gás. A queima no forno elétrico deixa a argila limpa, clara e os esmaltes adquirem tons vibrantes e uniformes.

Já no forno a gás o resultado é bem diferente: a argila. com a interferencia do fogo, escurece se aproximando aos tons de terra, dando ao vaso um aspecto sóbrio, aveludado. Quanto aos tamanhos, sim, o forno limita e muito o tamanho das peças.

André: Você tem clientes somente no Brasil? Qual região tem maior interesse pelos seus produtos?

Sergio: Tenho muitos clientes aqui no Brasil e alguns de fora também. De uma maneira geral o que limita muito a minha distribuição é o frete. Por exemplo um vaso despachado para a região de São Paulo, têm o frete muito mais em conta quando comparado ao frete para a região Norte/Nordeste ou Sul.

André: Vaso e planta são duas partes importantes no resultado final de um bonsai, em geral se parte da árvore para a escolha do vaso, você costuma auxiliar seus clientes na escolha do vaso?

Sergio: Sim. Alguns clientes pedem sugestões de formatos e cores para determinadas plantas e sempre que possível procuro auxilia-los.

plantas

André: Quais os principais aspectos a serem observados tanto na planta como no vaso para a escolha?

Sergio: Existem as métricas básicas como a largura do vaso não ultrapassar 2/3 da maior medida da planta e da altura do vaso ser proporcional à largura do nebari. Mas cada caso deve ser avaliado pois muitos Bonsai premiados internacionalmente fogem dessas regras. No final das contas acho que vale o bom senso pois um vaso não pode aparecer mais que a própria árvore.

André: Você produz vasos com muitas cores vibrantes, ao casar um vaso com uma planta é importante considerar não somente o formato do vaso mas também suas cores?

Sergio: Sim. Gosto muito dos vasos esmaltados por serem perfeitos para muitas das espécies de árvores que cultivamos aqui no Brasil. Para mim espécies como primaveras, caliandras, azaleas e tantas outras fruitferas necessitam de vasos com formas leves e tons mais vibrantes.

André: De onde você tira inspiração? Quais são suas referencias e estilos?

Sergio: Quando comecei minha principal fonte de inspiração foi a ceramica de Tokoname mas atualmente procuro me referenciar com a cultura latina e brasileira.

André: A cultura do bonsai como um todo esta engatinhando no Brasil, no segmento de vasos para bonsai não deve ser diferente, quais são os desafios e os caminhos para o desenvolvimento da cultura do bonsai no Brasil?

Sergio: O desafio é grande, difundir a cultura do Bonsai deve partir de nós bonsaistas, ceramistas, entusiastas. Acredito que a internet têm um papel muito importante, por ser uma ferramenta de fácil acesso e democratizada. Produzindo conteúdos de qualidade com informações precisas podemos desmistificar tabus relacionados à arte do Bonsai, esclarecendo a quem possa interessar que o cultivo do Bonsai é fácil e acessível, ideal para nós que vivemos nessa correria do dia a dia nos grandes centros e mal temos tempo para respirar e aproveitar um pouco o contato com a natureza.

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comentários

4 thoughts on “Entrevista – Sergio Onodera”

    1. Oi Chaddad, td bem?! Esse forno foi feito pelo JRicardo aqui de SP. É um forno pra queima de Raku e chega a 1.100 graus. Seria uma média temperatura… Ele é mais utilizado para demonstrações por ser leve, fácil de usar e transportar. Para queima de alta (acima de 1.200 graus) utilizo um forno elétrico maior. Abs! Sergio.

      1. Muito obrigado Sérgio, parabéns pelo seu trabalho, que Deus lhe ilumine cada vez mais nas suas criações e te de mais sucesso na sua missão de embelezar os bonsais do mundo.
        E fiquei triste de perder a oportunidade de adquirir um obra sua no evento do Mario Leal, mas no futuro ainda vou.
        Abração.
        Chaddad

  1. Parabéns ao amigo Sergio pelo trabalho que eu particularmente admiro muito.
    Gostaria de de desejar as Bençãos de Deus aos dois. Entrevistado e entrevistador. Gostaria que este site continuasse sendo atualizado sempre!
    Abraços.

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